Os idealizadores do Conexão do Saber desenvolveram centenas de módulos educacionais que, no computador, ajudam estudantes do Ensino Fundamental a aprimorar conhecimentos em matemática, português, geografia, história e ciências.
O programa é uma tecnologia social de diversas frentes. No laboratório de informática, os alunos se interessam pelas atividades lúdicas. Os professores sentem-se motivados pela chance de desenvolver os módulos de estudo, adequando-os ao currículo escolar e disponibilizando-os na web. Na prática, transformam-se em “co-autores” do software.
Em São José do Rio Preto, primeira cidade a integrar o programa de inclusão digital idealizado pela Unicamp, a Prefeitura investiu, em 2004, R$ 5 milhões na compra de equipamentos e na instalação em uma rede de fibras ópticas. A verba resulta da parceria entre Secretaria Municipal de Educação e a Empresa Municipal de Processamento de Dados (Empro). O que se limitava a um privilégio de estudantes da rede municipal acabou se tornando paixão coletiva. O público atendido vai desde jovens portadores de necessidades especiais a adultos praticamente analfabetos. Ou seja, o Conexão vai além dos muros da escola.
Quem acessa os módulos pedagógicos esquece as limitações físicas e os bloqueios emocionais. O saber está disponível a cidadãos de qualquer classe social ou nível intelectual. No laboratório de informática, até humildes usando chinelos de dedo orgulham-se de mover o mouse.
À procura de soluções
Na página de geografia, o estudante encontra os continentes, um separado do outro. Utilizando o mouse, a missão do aluno é “arrastar” cada continente para o devido espaço no mapa-múndi. Em outra página, cada país é ligado ao idioma falado. No final, a diversão ajuda o estudante a fixar o que foi ensinado na aula.
Para aprender português, o aluno encontra várias frutas desenhadas. Dentro de cada uma, as letras do nome estão embaralhadas. O usuário deduz, pela figura, de qual fruta se trata. Arrasta as letras, uma a uma, até que o nome preencha linhas tracejadas.
Os laboratórios virtuais encantam a garotada por exibir a órbita dos planetas em volta do sol. Outro permite uma viagem aos órgãos do corpo humano. Há links que mostram os animais da lagoa, a estrada do tempo, insetos do jardim, paisagens da Terra, sinais de trânsito. Mapas coloridos explicam como é o relevo e o clima de cada região e qual o produto mais cultivado em áreas específicas do Interior. A profusão de temas, elaborados e desenvolvidos a cada dia pelos professores, é imensa.
“O interesse pela atividade acabou com as faltas na rede pública. As crianças se divertem e não querem sair da sala”, diz Karina Perez Guimarães, coordenadora de Educação e Gestão Digital. “Além disso, motivamos o diálogo e desenvolvemos a capacidade de cooperação, já que grupos pequenos se reúnem ao redor da mesma telinha”, afirma.
Hoje, a Prefeitura gasta R$ 100 mil mensais para manter o Conexão do Saber. O dinheiro paga o salário de estagiários, que ajudam os estudantes nos 34 laboratórios virtuais, manutenção de equipamentos e acompanhamento técnico ocasional dos especialistas da universidade. Os benefícios do programa, contudo, são imensos.
A secretária Municipal de Educação, Maria do Rosário Ceravolo Laguna, explica que o envolvimento da comunidade no projeto é tão grande que o programa não corre o risco de acabar, qualquer que seja o prefeito ou o partido no poder. Isso porque todo o corpo docente da cidade se empenhou na preparação dos módulos. E os professores, aliás, ganham mais. Recebem remuneração extra: depois das aulas, reúnem-se para avaliar os temas e sugerir mudanças. “A Unicamp nos ajudou a valorizar a prestação do serviço público.”
A experiência deu tão certo que o governo municipal planeja expandir, ainda este ano, o projeto para as escolas infantis. O sistema audiovisual pode ensinar quem ainda nem aprendeu a ler.
Sem aborrecimentos
Do Jardim Gabriela, na periferia de São José do Rio Preto, avista-se ao longe a cidade rica, tomada de prédios, hospitais modernos e bares agitados. No bairro, fica a EMEF Professor Oldemar Stobbe. Os alunos fazem barulho e não conseguem conter o entusiasmo quando a professora Rosimeire de Araújo Petreca organiza a fila, na porta do laboratório.
Com 11 anos de carreira no Ensino Público, Rosimeire conta que o Conexão do Saber transformou as aulas. Os estudantes, diz, não se aborrecem mais. Antes, a matemática era acompanhada de semblantes enfadonhos. Agora não. A matéria torna-se diversão no computador, já que as operações básicas se convertem em gráficos coloridos.
Segundo a professora, a web é um instrumento fantástico para desenvolver conteúdos que, antes, ficavam limitados à lousa. “Para a criança, ela vem jogar e brincar. Na prática, sai do laboratório sabendo mais”, resume.
Do outro lado da cidade, no Jardim Fuscaldo, o laboratório do Centro de Ensino Municipal e Supletivo (Cemes) passou a receber adolescentes especiais. Há portadores de síndrome de Down e alunos com deficiências cognitivas. Há ainda jovens com problemas físicos, com déficit motor e usuários de cadeiras de rodas.
Todos freqüentam as aulas com a alegria de quem ganha presentes no Natal. “A procura pelo laboratório de informática cresceu a ponto de o Cemes formar oito turmas. São quatro professores à tarde e quatro pela manhã.
“É um espaço que recebe jovens de todas as classes sociais, que chegam de todos os bairros da cidade”, diz Jucélia Costa e Silva, professora com sete anos de carreira. “A ferramenta virtual devolve para a escola jovens que estavam apartados do sistema de ensino.”
E a escola volta a prestar um serviço social primordial. “Os jovens passam a conviver com as diferenças e respeitá-las. Valorizam a tolerância, a bondade, a benevolência, a compaixão”, explica Jucélia.
Da roça para o mundo infinito
Ao cair da noite, os corredores barulhentos do Cemes estão silenciosos. Aos poucos, no entanto, chegam os adultos, participantes das aulas de alfabetização. Vindos da roça à procura de emprego na cidade, não tiveram o prazer de freqüentar bibliotecas ou de ir ao teatro, mas conhecem o mundo todo ali, na tela do computador. Hoje, os alunos se sentem bem por voltar a fazer parte do mundo.
Adílson Luís Florentino nem chegou aos 30 anos. Na escola, não passou da 5ª série. Quando chegou a Rio Preto, começou a trabalhar como jardineiro. Acomodado, foi incentivado pelo patrão a estudar informática. Além de ser promovido (hoje ele vende plantas), Adílson voltou a namorar. “Tinha vergonha de me aproximar de uma moça. Agora não. Fiquei por dentro dos assuntos do dia”, diz.
Osmilton Donizete Alcântara deixou a lavoura em Jaciara (GO). Em Rio Preto, arranjou um emprego de motorista. Em um acidente, perdeu a visão do olho esquerdo. Aos 46 anos, afastou-se da estrada e usou o dinheiro guardado para comprar um computador para os filhos adolescentes, de 15 e 13 anos.
Mas Osmilton andava mergulhado na tristeza. Sofria por não conseguir conversar com os filhos. Não entendia o que os rapazes faziam na frente do computador. “Quando comecei a explorar os módulos do Conexão, aprendi muito. Comecei a sentir o prazer de ter o que dizer. Eu desperto agora a atenção dos meus meninos.”
Ambiente de troca
O Conexão do Saber vem sendo idealizado desde o final de 1990, quando um convênio firmado entre a Unicamp e a Universidade da Flórida (EUA) desenvolveu projetos de infovias. Na época, Leonardo Mendes, professor da Faculdade de Engenharia Elétrica e Computação, direcionou a idéia à Educação. “Desenvolvemos um software que integrava as escolas em rede, um ambiente aberto para a troca de conteúdos educacionais preparados pelos próprios professores”, diz.
Como forma de aprimorar o sistema público de ensino, a idéia foi direcionada às prefeituras. A partir de São José do Rio Preto, o projeto foi implantado em outras cinco cidades: Penápolis, Guará, Santos, Salto e Pedreira. “Hoje, há 80 mil paulistas integrados em mais de 1.400 módulos pedagógicos”, comemora.
Os educadores do Interior que aderiram ao projeto o conheceram por meio da Inova, um escritório vinculado à reitoria da Unicamp, responsável pela transferência da tecnologia desenvolvida no campus. Fundada há cinco anos, a agência registra patentes e vende às empresas produtos desenvolvidos pelos pesquisadores.
Segundo Diógenes Feldhaus, diretor de desenvolvimento de parcerias da Inova, o Conexão do Saber é fruto de investimentos. Não só no software, mas em toda a rede física para a transmissão de dados. “O poder público monta um sistema complexo, que futuramente permite a inclusão digital de todos os moradores a preços irrisórios”, diz.
Saiba mais
www.conexaodosaber.com.br
Em São José do Rio Preto, com a coordenadora Karina Guimarães:
kguimaraes@empro.com.br
Fonte:
Revista Metrópole